1% VALE MAIS
DO QUE 99%?

Oito pessoas possuem uma riqueza equivalente
à de outros 3,6 bilhões de indivíduos,
metade da parcela mais pobre do planeta.
Em outras palavras, o modelo atual de economia
está a serviço de apenas 1% da população mundial.

A
ONG britânica Oxfam divulgou no começo desse ano um relatório que confirma algo que muitos já sabemos, porém com números assustadores. Na última década, a renda dos 10% mais pobres aumentou em US$ 65, com crescimento de US$ 3 por ano. Do outro lado, a renda dos 1% mais ricos cresceu 182 vezes mais, US$ 11.800. Hoje,  segundo a Oxfam, é possível afirmar que essa pequena parcela acumula um patrimônio superior ao de 99% da população global. Os dados apontam que a soma do patrimônio total de apenas oito homens é igual ao da metade pobre do mundo todo. Enquanto o crescimento econômico beneficia os mais ricos, o resto da sociedade, principalmente a parcela mais afetada pela pobreza, sofre com a miséria e dificuldade de se alimentar.  “O retrato da desigualdade esse ano está mais claro, mais certeiro e mais chocante do que antes. É mais do que grotesco o fato de que um grupo de homens que caberia facilmente em um carrinho de golf é mais rico do que a metade mais pobre da humanidade”, disse Mark Goldring, chefe executivo da ONG.

 

O mais preocupante é que essa enorme diferença entre privilegiados e o restante da humanidade está muito longe de diminuir e, seguindo estimativas, a tendência é que ela aumente ainda mais. Uma vez acumulada, a fortuna cresce rapidamente. No ano de 2009, existia 793 bilionários no mundo com uma riqueza total de US$ 2,4 trilhões. Já em 2016 esses mesmos indivíduos possuíam US$ 5,0 trilhões.

Bill GatesUm exemplo fácil para entender esse cenário: quando Bill Gates deixou a Microsoft, em 2006, ele tinha uma riqueza líquida de US$ 50 bilhões. Dez anos depois, esse valor havia aumentado para US$ 75 bilhões, apesar de suas admiráveis tentativas de doar esses recursos por meio da sua fundação. De acordo com Oxfam, caso a fortuna de Bill Gates continue subindo no mesmo ritmo, em 25 anos, ele se tornará o primeiro homem na história a acumular US$ 1 trilhão.

Sitação no VietnãSem uma postura mais atuante dos governos para combater a desigualdade crescente, o futuro das nossas sociedades é preocupante. Ela colabora para o aumento da criminalidade, gera mais insegurança e compromete o combate à pobreza. Já existem movimentações de pessoas e organizações civis que demonstram insatisfação com essa situação. Por quê aceitar o cenário atual se experiência que ele oferece promove estagnação de salários, empregos precários e um vão gigante entre ricos e pobres?

Mulheres em pior situação

Já é sabido que as mulheres, em qualquer canto do mundo, sofrem com o machismo e a indiferença em muitos setores da sociedade. No campo do emprego, muitas delas recebem salários mais baixos em comparação aos homens, mesmo quando possuam as mesmas funções. Além disso, quase sempre, é a mulher a única responsável pelo trabalho doméstico não remunerado. Ainda de acordo com o relatório da Oxfam, no ritmo atual, somente daqui a 170 anos a mulher atingirá os mesmos níveis salariais dos homens.


situação das mulheres no mercado do Brasil

Que comece o combate

Além de aumentar a participação feminina na força de trabalho, é extremamente necessário a universalização do ensino, desde a infância. Crianças e jovens devem aprender desde cedo os valores sociais, a importância de empatia, o valor do altruísmo puro. Não encarar as outras pessoas como objetos para obtenção de vantagens. A lógica do capitalismo acaba desenvolvendo uma visão cruel de que o indivíduo precisa sempre ter mais, tornando a quantidade mais importante do que a qualidade. Criou-se a competição focando em ter, para ser; fortaleceu-se o individualismo. A pessoas devem ser participantes do crescimento e desenvolvimento econômico, e não ser utilizados pura e simplesmente como combustível dessa realidade desigual e prejudicial. O desafio para os próximos anos é a criação de uma alternativa positiva que vai na contramão disso e não a manutenção de um modelo que aumente ainda mais essas divisões.

Desigualdade em verde e amarelo

No Brasil, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em sua última análise, a parcela 1% mais rica, em 2014, tinha um ganho em média de R$ 14.548,00; os 10% mais pobres ganhavam R$ 155,00 por mês. Cem vezes menos.
O país passou por uma transformação significativa no campo social nos últimos anos. O relatório do Banco Mundial de 2015 afirmou que o Brasil praticamente conseguiu erradicar a extrema pobreza e pouco mais de 25 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema ou moderada. Tal resultado só foi possível por causa de políticas de distribuição de renda, baixa taxa de desemprego e políticas públicas voltadas para o social. Mesmo com mudanças significativas e entre as oito potências econômicas do mundo, ainda somos uma das nações mais desiguais.
A fórmula para a construção de uma sociedade menos desigual passa por quatro pontos, o primeiro deles é a manutenção de um crescimento econômico sustentável e inclusivo. O segundo, pelas políticas públicas focadas em reduzir a extrema pobreza; o terceiro é o fortalecimento do mercado de trabalho, aumentando as taxas de empregos formais, com carteira assinada e igualdade salarial para homens e mulheres. Por último, altos investimentos na educação, garantido acesso universal desde a infância, reduzindo a evasão escolar e o analfabetismo.


distribuicao da riqueza no brasil e no mundo

 

Publicado no Jornal Transcender de abril/maio 2017
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