África, um continente sem vacina

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Na África o coronavirus está se espalhando. Nos primeiros três meses da pandemia, em 2020, parecia que a África tinha sido atingida de leve. No entanto, neste ano, a Covid se espalha pelo continente.

Nesta secção escrevemos já várias vezes que, infelizmente, durante a pandemia as periferias do mundo se tornaram ainda mais periferias.

Falando em vacina, o assunto mais importante da nossa época para a combate da Covid19, tem um continente que risca de ficar com bem poucas doses: é mesmo a África, que até o fim de fevereiro imunizou 2,14 milhões de pessoas, ou seja, 0,16 dose para cada 100 habitantes.

Na Europa esta taxa de imunização é de 5,25 doses aplicadas a cada 100 habitantes e os Estados Unidos vacinaram mais de 56 milhões de pessoas (significa que 17 doses foram aplicadas para cada 100 habitantes).


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África, a imagem da desigualdade

Como relatou a Cnn, entre os 82 países que registraram ao menos 100 mil casos desde o início da pandemia, apenas 59 já começaram a vacinar suas populações.

Foram aplicadas mais de 186 milhões de doses dos vários imunizantes, porém só uma parte muito pequena, mísera (apenas o 6%), foi utilizada nas regiões mais pobres do mundo como África, América Central e América do Sul.

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credit: abril.com.br

Conforme os dados da Universidade Johns Hopkins, Ásia, Europa e América do Norte, juntas, foram responsáveis pelo uso de 94% dos imunizantes (cerca de 175,6 milhões de doses).

Disparidade, falta de equidade: Rodrigo Stabeli, pesquisador titular da Fundação Oswaldo Cruz, comentou o fato usando palavras fortes. “Isso já aconteceu em surtos recentes, como por exemplo na época que foi desenvolvida a primeira vacina contra influenza”. E ainda: “Voltar a ter essa situação indica que não aprendemos com a história”.

Os estados africanos estão na fila de espera

A África do Sul já recebeu um milhão de doses da AstraZeneca e o Ruanda, para fazer mais um exemplo, encomendou um milhão às empresas farmacêuticas norte-americanas Pfizer e Moderna.

Outros vários estados africanos estão “na fila de espera”. “Precisamos de ser independentes como Continente e como País quando se trata de vacinas e produtos farmacêuticos. É uma tolice confiar nas nações ocidentais para questões médicas. Não queremos ser sempre os últimos em que pensam”, o ataque do ministro da Saúde do Quénia, Mutahi Kagwe.


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Como a comunidade internacional está tentando ajudar

“Deveríamos transferir de 3% a 5% das vacinas que temos em estoque para países da África. Isso não teria nenhum impacto no ritmo da vacinação nos países ricos”. São palavras do presidente da França, Emmanuel Macron, que numa entrevista ao Financial Time defendeu que a União Europeia e os Estados Unidos enviem parte das doses de vacina contra a covid-19 que compraram a países em desenvolvimento.

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“Tanto do ponto de vista da saúde humana quanto do econômico, ser nacionalista neste momento é muito caro para a comunidade internacional”, acrescentou Ngozi Okonjo Iweala, nova diretora geral da Omc, a Organização Mundial do Comércio, que disse que o fato de a grande maioria das doses estar nas mãos dos países mais ricos pode corroer o crescimento econômico de todas as nações.

“Se os líderes dos países ricos e as empresas farmacêuticas não agirem rapidamente nessa direção, corremos o risco de gerar novas pandemias Covid-19 resistentes a vacinas. Proibições de viagens não vão parar a pandemia, equidade e solidariedade podem, em vez disso, estancá-la”, a solução segundo Tom Ellman, diretor de Médicos Sem Fronteiras na região Sul da África.


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Projeto Covax, vacina para todos

O Gana se tornou, no final de fevereiro de 2021, o primeiro país do mundo a receber vacinas contra o coronavírus pelo Covax, programa criado pela Organização Mundial da Sáude para ampliar a distribuição dos imunizantes, garantindo assim que Nações de baixa renda não sejam negligenciadas.

O projeto atua em duas fases: por um lado convidando países de renda alta e média-alta a criarem um fundo coletivo para comprarem as injeções em conjunto e antecipadamente; por outro, adquirindo vacinas a preços baixos dos fabricantes e entregá-las gratuitamente aos Países de renda baixa ou média-baixa.

Já alguns meses atrás Papa Francisco disse: “Seria triste se essa vacina contra a Covid-19 fosse dada a prioridade aos mais ricos! Seria triste se esta vacina se tornasse propriedade desta ou daquela Nação e não universal para todos”. Um apelo que, até agora, permaneceu parcialmente inédito.

texto publicado na seção “Periferias” na edição de maio número 252° da revista Mundo e Missão. Gostou da matéria? Seja um nosso assinante


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