Mês das Vocações o chamado à Vida

Por Dom Antônio de Assis Ribeiro,SDB  bispo Auxiliar de Belém e membro da Comissão Episcopal Pastoral para a Juventude CNBB.

A vida é um chamado, é missão, é caminhada… não é sucesso! Talvez aqui esteja o princípio da compreensão errônea do mal viver! A consciência de vocação, do qual brota o sentido da vida ou a razão do viver, nos leva à experiência do fazer caminhada, do “ex-sistere” que significa vir para fora, manifestar-se, apresentar-se.

Vive verdadeiramente quem não despreza a si mesmo, não foge dos outros, não se afasta de desafios oportunos, nem se esconde da sociedade. Assumir a vida como vocação significa acolhê-la como dom de Deus, como presente, como responsabilidade! Mas isso pressupõe a consciência de fé! Por isso, há relação íntima entre qualidade de vida moral (que não é sucesso) e espiritualidade.

1. A vida dom de Deus

A vida é dom de Deus, presente divino; de fato, ninguém pediu para nascer! O que ganhamos sem pedir chama-se presente, dádiva, dom! Alguém nos chamou à existência, à vida, e à vida humana! Alguém nos capacitou: nos deu inteligência (criatividade), vontade, liberdade, capacidade de amar, consciência, vida espiritual… etc. Recebemos portanto, um investimento extraordinário da parte do criador! Deus aposta em nós!

Podemos dizer que o sentido da vida está no reconhecimento do Amor de Deus por nós que também nos capacitou para o Amor. Vivemos para amar porque viemos de Deus, que é amor. Por isso, sentindo-nos amados, amamos: vamos ao encontro dos outros, nos abrimos para a amizade e serviço aos semelhantes! E o que é Amar? Amar é ser bom, amar é fazer o bem, amar é servir; amar é cuidar-se, amar é preservar-se do mal amar é ser capaz de cuidar. É da prática do bem que vem a alegria da nossa existência! É preciso saber viver!

Quando refletimos sobre vocação necessariamente devemos considerar a liberdade humana. Se vocação é um chamado de Deus, então toca ao ser humano, movido pela fé, a liberdade do discernimento da voz de Deus e a pessoal responsabilidade da decisão.

Foto: Jovens Conectados

2. A diversidade de vocações

Em virtude do batismo recebido, há uma só vocação cristã tendo Jesus Cristo como fonte e, ao mesmo tempo, meta de tudo e condição para a sua realização. Todavia, há uma diversidade de vocações específicas cristãs, tais como: a vocação matrimonial, a vocação ao sacerdócio, a vocação à vida religiosa, vocação à vida consagrada laical, vocação celibatária (solteiros sem voto de castidade). Todas elas partem do chamado à vida!

Essa perspectiva vocacional não se identifica com o agir profissional. A questão vocacional diz respeito ao nosso estado de vida, ao sentido da nossa existência, à nossa realização pessoal. Isso não se confunde com a questão profissional.

Um erro vocacional e muito mais sério e profundo do que a troca de profissão. Na vida pessoal podemos exercer múltiplas profissões, mas nos realizamos através de uma escolha fundamental. A profissão é conquista, a vocação é dom de Deus! A profissão pressupõe treinamento e formação, a vocação discernimento e oração.

3. Alicerçados em Cristo

Os caminhos são diferentes, assim como são diversos os modos como cada uma respondendo à sua vocação pode se realizar. A meta de todas essas vocações é a santidade e o caminho a ser seguido é Jesus Cristo.

Deus Pai nos deu um modelo: o chamado a dar sentido para a vida acontece a partir da nossa comunhão com a mentalidade, sentimentos e atitudes de Jesus Cristo. A vocação cristã é viver conforme a vida do Filho de Deus que se encarnou e viveu entre nós. Ele nos mostrou que o verdadeiro sentido da vida está no desenvolvimento da nossa capacidade de amar e servir. Jesus Cristo é o nosso modelo!

Eis o que afirma São Paulo: “Em Cristo, toda construção se ergue, bem ajustada, para formar um templo santo no Senhor. Em Cristo, vocês também são integrados nessa construção, para se tornarem morada de Deus, por meio do Espírito” (Ef 2,21-22).


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4. Cuidar da Vida

O chamado à vida nos responsabiliza a cuidar da Vida! Portanto, quem tem plena consciência da beleza da Vida como dom de Deus, sente-se profundamente comprometido com a promoção da mesma. Antes de tudo, cuida da própria saúde e bem-estar evitando tudo aquilo que pode negar o dom recebido, que é sagrado porque vem de Deus.

A vocação à vida nos leva à responsabilidade pela promoção incondicional da vida humana em todas as suas fases e circunstâncias. Muitas podem ser as formas de negação da dignidade humana, como por exemplo: a drogadição, o aborto, o homicídio, o suicídio, os vícios, a perda do sentido da vida, o materialismo, a miséria, o egoísmo, a corrupção, as formas de tratamento degradante, a fofoca, a indiferença aos mais pobres, a dependência tecnológica, etc. Somos a chamados ser biófilos, amantes da Vida.

O cuidado com a Vida nos leva também a pensar na nossa responsabilidade ecológica, através do cuidado com a Casa Comum. Nós não estamos sozinhos neste mundo. A vida humana está envolvida num enorme universo de múltiplas formas de vida e sem elas, a vida humana não se mantém.

Foto: Franciscanos – Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil – OFM

5. Um processo dinâmico

Mas como descobrir a nossa vocação específica como cristãos? Como podemos reconhecer o chamado de Deus para o matrimônio, vida Consagrada, vida sacerdotal, para a vida religiosa? Nada é automático! Para chegarmos a uma decisão vocacional e assim dar sentido para a nossa vida, é preciso que façamos algumas experiências muito importantes. Reflitamos sobre este processo.

a) Reta intenção: antes de tudo, para qualquer busca, é preciso sinceridade, honestidade, reconhecimento da beleza da vida e desejo de felicidade segundo a vontade de Deus. Não podemos mentir para nós mesmos. Felicidade e verdade caminham juntas!

b) Oração: Deus é a fonte da Vida, então é a Ele que devemos recorrer pedindo-lhe que nos revele seu projeto para conosco. Foi isso que fez o adolescente Samuel dizendo: «Fala, que o teu servo escuta» (1Sm 3,10). Alimento da oração é a meditação sobre a Palavra de Deus. Ela nos sensibiliza, educa, orienta, forma para a vida.


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c) Acompanhamento: a revelação da vontade de Deus sobre nós é gradual. Por isso para que o discernimento seja sério é preciso que seja acompanhado por alguém maduro que possa nos ajudar a discernir a vontade de Deus. Nem sempre os sinais são claros. Há muitos fatores a serem considerados e vozes do mundo que interferem nessa escuta: o ambiente cultural, a vaidade, as fantasias, a ignorância…

d) Processo: nada acontece automaticamente; é preciso evitar a euforia que se manifesta, muitas vezes, através do presentismo e do imediatismo que rejeitam a experiência de uma caminhada que exige o percurso de etapas, de processo de amadurecimento, de experiências várias até se chegar a uma decisão vocacional.

e) Família: em geral o amadurecimento vocacional acontece dentro do contexto familiar. Cada vocacionado é convidado a partilhar com seus pais e irmãos o que sente, o que está sonhando e amadurecendo. A família é a primeira base de apoio para todas as vocações. Todavia, dependendo da sua situação, o contexto familiar pode ajudar ou dificultar. Mas a vocação é sempre dom de Deus!

f) Liberdade interior: enfim, o processo de discernimento vocacional implica coragem e decisão pessoal: quem tem medo de tomar decisões nunca irá a lugar nenhum! Viver é correr riscos! Mas é preciso arriscar, ousar, lançar-se, acreditar, lutar, disponibilizar-se! (cf. Mt 25,14-30). Quem tem medo de tomar decisões ou fazer a experiência da busca por um sentido para sua vida, nunca vai ser feliz! É preciso não ter medo de tomar decisões sérias, serenas e maduras. Quando Deus nos chama para uma missão, também nos assegura a felicidade e todos os meios para que tudo se cumpra. O medo é normal; perder a liberdade, não!

PARA A REFLEXÃO PESSOAL:

1. O que seria um erro de decisão vocacional?

2. Por que a vocação é mais exigente do que a profissão?

3. Por que o presentismo e o imediatismo atrapalham o processo de amadurecimento vocacional?

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