A realidade debaixo do tapete

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Trafico Humano

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No mundo há de 21 a 35 milhões de vítimas do tráfico: homens, mulheres e crianças compradas, vendidas e usadas, sobretudo para a prostituição e o trabalho forçado. São os novos escravos do século 21.

Irmã Gabriella Bottani, comboniana italiana, luta há muitos anos contra as novas escravidões. E depois de atuar na rede antitráfico no Brasil, hoje dirige a aliança internacional das religiosas. Viveu muito tempo em Fortaleza e, depois, na Amazônia para, em seguida, transferir-se a Roma, onde coordena a rede “Talitha Kum” (“Menina, levante-se”), uma rede internacional das religiosas que atuam contra o tráfico de seres humanos. Na verdade, Talitha Kum é um pool de redes que atuam em 70 países dos cinco continentes e que abarcam mais de mil religiosas pelo mundo afora.

A entidade nasceu no interior da União Internacional das Superioras Gerais (UISG), no âmbito de um projeto administrado em colaboração com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) contra a exploração de seres humanos. Hoje, é líder na promoção da Jornada Internacional de Oração e Reflexão contra a Exploração de Pessoas, que é celebrada anualmente no dia oito de fevereiro.

Vamos ouvir a missionária:

O que a senhora leva de sua experiência no Brasil para esta nova missão?

Desde alguns anos atrás faço parte da “Rede um grito pela vida”, uma rede digital de diversos grupos de religiosas, religiosos e leigos que, em muitas partes do Brasil, lutam contra o tráfico interno e internacional de seres humanos e contra todas as formas de exploração escravocrática. Este empenho permitiu-me amadurecer em conhecimento e competência sobre o fenômeno e de conhecer diretamente o drama de muitas vítimas.

Quantas pessoas participam da rede brasileira e o que elas fazem?

Cerca de 200 religiosas de diversas congregações e nacionalidades estão comprometidas, brasileiras na maioria, além de vários leigos e uma dezena de padres. O trabalho é muito diversificado de região a região e também varia conforme as competências das pessoas envolvidas. Há a religiosa que entra em bordéis e a que vai às escolas; há a que ensina em universidades e quem é especializada em Bíblia e que aprofunda certos aspectos teológicos com grupos de estudo bíblico, …

Concretamente, do que você se ocupava no Brasil e onde?

Inicialmente, na companhia de duas irmãs de outras congregações havíamos decidido criar, em 2007, um núcleo desta rede em Fortaleza, uma das encruzilhadas do tráfico de seres humanos, tanto no interior do país, quanto no exterior. Fortaleza é, de fato, uma importante meta turística, onde infelizmente é também muito desenvolvido o turismo sexual.

O que vocês faziam?

Antes de mais nada, nos dedicávamos ao estudo para conhecer e nos aprofundar no fenômeno da exploração em suas diversas dimensões, mas sobretudo no âmbito das suas causas. A prevenção era a prioridade da nossa ação. Havíamos contatado especialistas, pessoas que se ocupavam do fenômeno, dispostos a entrar nas dinâmicas. Em Fortaleza havia outros grupos e associações que, a partir de diferentes pontos de vista – direitos das crianças e adolescentes, turismo sexual, organizações femininas… – tratavam também da exploração humana. Fortaleza é um dos locais majoritariamente comprometidos com este fenômeno, mas, por outro lado, uma cidade com forte trabalho social. Até as diferentes pastorais sociais da diocese se debruçam sobre este tema. A Pastoral da Criança, por exemplo, dispõe de um setor específico dedicado a combater a prostituição infantil. Há iniciativas e projetos dedicados às mulheres marginalizadas. Algumas iniciativas nasceram no interior da Igreja, e agora continuam autonomamente como ONGs.

A senhora fala de causas. Quais as principais?

Sobretudo econômicas. Pobreza e miséria atingem principalmente crianças e adolescentes. Mas existem também macrodesigualdades sociais e econômicas. A ideia é que você existe apenas se possui algum bem. As mídias difundem um sonho de consumo, riqueza, felicidade, que, porém, são qualidades impossíveis de serem obtidas pelos mais miseráveis. Além disso, há uma quantidade enorme de desagregações familiares.

trafico de humanos

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Quem são os “clientes”?

Principalmente brasileiros, mas também estrangeiros e, no topo da lista, italianos.

Nesta situação, como as redes de traficantes e de exploradores conseguem se propagar?

Há diferentes situações. Existem redes estruturadas no tráfico internacional, principalmente para a Espanha e a Itália, mas também para Suíça, Holanda e Portugal, sobretudo a serviço da prostituição. Com certa frequência aliciam adolescentes e senhoras já exploradas sexualmente em Fortaleza. Muitas embarcam para a Europa para exercerem o mesmo “trabalho”, mas não imaginam que encontrarão degradantes situações de escravidão.

Como é que as senhoras procuravam atuar na prevenção?

Em 2009 iniciamos uma parceria com as escolas para adultos em Fortaleza e um trabalho com assistentes sociais. Visitávamos sistematicamente escolas e grupos de risco e colaborávamos com uma congregação que se ocupava no trabalho com jovens grávidas. Estas nos pediam um caminho para deixar a prostituição. Lutávamos para que as pessoas abrissem os olhos, mas também agíamos em termos mais “políticos”.

Dia mundial contra o trafico de pessoas

Em que sentido?

A partir de 2010, depois da criação do grupo governamental contra a exploração, participávamos da comissão paritária, formada por 50% de representantes do governo e as demais, por membros da sociedade civil. Este grupo elabora as políticas públicas sobre a questão. Através dele, procurávamos promover políticas sociais e propostas concretas para despertar o compromisso dos representantes do Estado.

Além disso, estamos dando impulso para que os objetivos do Segundo Plano Nacional contra a exploração prevejam a construção de centros de acolhida que, no momento, ainda não existem. Nossa ideia é que o governo deva se encarregar deste compromisso.

A recente Copa do Mundo e as Olimpíadas, ambas realizadas no Brasil, levaram ao palco do país  o fenômeno do tráfico de pessoas  e da exploração sexual, mas também o empenho das senhoras para
combater tais males…

A nossa campanha mais importante estava focada, sobretudo, no Campeonato Mundial de Futebol. Mas a nossa Rede não estava sozinha na empreitada, pois muitos outros grupos também participaram da campanha. No total, umas mil pessoas trabalharam voluntariamente em todos os campos e com diversos tipos de ação: panfletagem, manifestações de rua, caminhadas, trabalho nas escolas… A tendência do governo era minimizar o fenômeno. O fato é que mais de 40% foram denúncias contra a exploração da prostituição infantil. Os demais casos eram referentes ao tráfico de pessoas.

De Fortaleza à Amazônia, sempre tráfico, mas diferentes formas de exploração…

Depois de oito anos em Fortaleza, nos dois anos mais recentes estive em Porto Velho, capital de Rondônia, na fronteira com a Bolívia. Quando cheguei lá, o problema do tráfico ainda não era discutido seriamente e nem levado em consideração, tanto pelos organismos do Estado, tampouco pelas ONGs.

Jamais havia alguma sensibilização a respeito do fenômeno, ainda que a região amazônica seja a que mantém o principal número de rotas, tanto internas quanto internacionais. Rondônia em especial, apresenta duas situações de alto risco: a primeira é a construção de grandes represas, que aumenta o tráfico para a exploração de mão de obra e o “comércio” da prostituição, sobretudo de menores; a segunda é proximidade da fronteira boliviana, bastante vulnerável. Entre Brasil e Bolívia há um corredor de entrada e, ao mesmo tempo, de saída de vítimas do tráfico, não só para a prostituição, mas também para o trabalho escravo, especialmente nas grandes plantações das multinacionais que utilizam adubo químico. A região norte cresceu sob ciclos de exploração: borracha, minérios, floresta, água, solo (para lavoura ou criação de gado)… Tudo é objeto de exploração e nem mesmo se percebe que até as pessoas são exploradas. Muitas garotas originárias de lugarejos interioranos são levadas para “estudar” em cidades maiores; na verdade, vivem reclusas em casa como escravas, trabalhando nos sete dias da semana, e frequentemente são abusadas sexualmente. As que são afortunadas, frequentam as escolas noturnas. Quando falávamos da campanha e das estratégias da escravidão, só naqueles momentos algumas se davam conta de que elas mesmas eram escravas.

No trabalho contra o tráfico de pessoas as senhoras encontravam apoio ou rejeição?

Em Porto Velho imaginamos iniciar um trabalho influente a fim de que a polícia se sensibilizasse sobre o fenômeno. Mas a principal conquista foi a parceria iniciada com a Universidade federal. A reitora nos apoiou muito e iniciamos um curso reconhecido na grade curricular para formar pessoas dedicadas à prevenção contra o tráfico e à difusão de uma cultura dos direitos e do respeito da pessoa humana. A Igreja católica brasileira também se debruçou logo sobre o fenômeno, dedicando a Campanha da Fraternidade de 2014 sobre o tema: Fraternidade e Tráfico Humano. Tais iniciativas muito nos ajudaram a conscientizar as pessoas que o tráfico humano é mais um problema sério, em vários níveis, neste grande país.

 

Bakhita

Jornada Internacional contra o tráfego humano.

Desde 2015, por solicitação do papa Francisco, foi criada a Jornada Internacional de Oração e Reflexão Contra o Tráfico Humano. A Jornada é sempre celebrada no dia 8 de fevereiro, festa litúrgica de Santa Bakhita, escrava sudanesa, libertada, convertida e que se transformou em religiosa canossiana. Josefina Bakhita (1868-1947) foi canonizada no ano 2000. O objetivo desta Jornada Internacional é, antes de tudo, o de despertar uma consciência maior sobre o fenômeno e o de propor reflexões sobre a situação global de violência e injustiça, que golpeiam dolorosamente milhões de pessoas em todo o planeta. Ao mesmo tempo, indicar pistas reais que possam responder a esta moderna forma de exploração de seres humanos. Por isto, se de um lado salienta a necessidade de garantir os direitos, a liberdade e a dignidade para as pessoas traficadas e reduzidas à escravidão; de outro, denuncia tanto as organizações criminosas quanto aqueles que usam e abusam da pobreza e da vulnerabilidade destas pessoas, transformadas em objeto de prazer ou em fonte de lucro fácil.

Publicado na Revista Mundo e Missão de maio 2017
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