Costurando mitos e religião

Costurando mitos e religião

A referência religiosa nas obras de Frida Kahlo vinha de povos abandonados e marcados pela pobreza. Em seus quadros e fotos, seus vestidos e colares eram rodeados e marcados por aspectos religiosos presentes na cultura mexicana. Ao mesmo tempo, um mergulho na alma e na cultura. Entre espaços diferentes. Fronteiras que nunca separam, mas unem, provocando a nossa identidade.

E
m seu quadro “Autorretrato na fronteira entre México e Estados Unidos”, o vestido de Frida Kahlo está ao lado de elementos como o sol, a lua, o templo, a caveira, o sangue, o ciclo vida-morte asteca e outros elementos da terra que servem para compor referências culturais, religiosas e teológicas do México.
Além das expressões religiosas pré-colombianas, a obra de Frida faz fortes referências ao catolicismo popular, como as coleções de milagres, os retablos, que Frida guardava. A Virgem Maria e os santos, Jesus Cristo, seu sofrimento e todo o imaginário católico são símbolos recorrentes na sua obra.
O que parecia interessar a Frida, em meio à questão religiosa, eram os movimentos desvinculados do poder central, unívoco, de controle absoluto das religiões. Os símbolos das religiões pré-colombianas eram sinais de independência e autonomia de um povo que construiu seu mundo, autenticava o passado e sinalizava vínculos necessários do povo mexicano.
Para Frida, essa força religiosa nativa tinha muito mais a ver com a identidade mexicana, e deveria criar resistência à força e aos vínculos econômico-religiosos interconectados nas fronteiras entre os Estados Unidos e o México. Também não lhe interessava o catolicismo oficial com suas doutrinas corretas, mas, sim, a recriação que o povo fazia com os elementos do cristianismo recebido dos conquistadores.
Assim, as religiões pré-colombianas e o catolicismo popular carregavam uma verve imaginária, outra teologia sem o “deus” necessariamente autorizado, e o conhecimento do Ocidente. Ao contrário, a teologia popular é o engendramento do sagrado a serviço da vida em suas expressões mais agudas, em seus desejos de materialidade, bênção e festa. Traduz outra tradição-tradução, outro conhecimento da vida e de Deus, e se dá continuamente ao refazer, dependendo das necessidades do povo.
Os vestidos das mulheres mexicanas traziam essas referências religiosas, fazendo com que a religião ficasse dependurada nos vestidos e com eles. Assim, Frida desenvolve uma religiosidade nascida e fomentada a partir de experiências sincréticas e das vicissitudes do povo, em continuidade, contraste e oposição à religião oficial. Seus vestidos talvez se empenhem em contemplar uma fé dependurada, paradoxalmente incerta, não fixa, que se dá continuamente na materialidade do roçar do vestido no corpo, para recriar o mundo do jeito que quiserem.
Assim, o vestido de Frida, das mulheres mexicanas do norte, do centro e do sul da América está pendurado ali. E nós também. O vestido não está ali por acaso, mas em meio a um redemoinho de fronteiras, limites e referências que as traduzem e silenciam. É revolucionário porque desfaz e confunde os limites estabelecidos e anuncia uma possibilidade diferente.
O que faz com que o vestido esteja lá, pendurado, e nos assegure que lá esteja ainda? O vestido pendurado nas fronteiras desarma as formas de conhecimento, incluindo o conhecimento religioso. O vestido fala da transitoriedade, da resistência, da fragilidade e da força do vento, coisas mais ligadas à religiosidade popular do que aos sistemas oficiais de fé.
O vestido do quadro “Autorretrato na fronteira entre México e Estados Unidos” traz uma identidade de um “lá/aqui” indefinível. Esse vestido parece ocultar o que não se pode saber; está aqui, mas também em outros lugares (aqui, cá, lá, acolá, ali, além). Está pendurado lá, num contexto complexo, possivelmente vulnerável a negociações infindas. Os vestidos falam e silenciam corpos ausentes, desterritorializados, jogados para algum lado invisível na malha de relações das fronteiras. Eles servem de sinalizador de algo que se foi, ou que ainda está ali, mas renunciado, negado, escondido.
Por fim, acredito que Frida nos dá um instrumento teológico novo: um vestido! E um lugar: “lá.” Nossa tarefa talvez seja a de discernir o vestido, os corpos presentes-ausentes e o lugar desterritorializado onde estão os vestidos e os corpos. Assim, os vestidos falarão de nós, mas a partir dos corpos e dos vestidos dos outros, entre as fronteiras de nós mesmos e das nações que nos cercam, aqui e lá, sendo esse lá onde quer que seja. O vestido de Frida está lá na fronteira, mas nós também lá estamos.

FRIDA KAHLO

frida kahloFrida Kahlo (Coyacán, México, 1907 – 1954) foi uma importante pintora mexicana do século 20. É considerada por alguns especialistas como artista que fez parte do Surrealismo. Porém, a própria Frida negava que era surrealista, pois dizia que não pintava sonhos, mas sua própria realidade. Destacou-se ao defender o resgate da cultura dos astecas como forma de oposição ao sistema imperialista cultural europeu.

 

O abraco de amor do universo

O abraço de amor do universo, a Terra (México), eu, Diego e o senhor Xólot (1949)

Esta pintura possui uma grande riqueza de símbolos, relacionamentos à mitologia asteca. O tema principal se refere à maternidade. Frida, depois de um acidente, não  pôde ter filhos. Na pintura, o seu papel de mãe se expressa segurando nos braços Diego Rivera, o maio pintor mexicano do século vinte e seu companheiro. Ela quer expressar a complexidade do papel que a mulher desempenha. A mulher nutre a vida, enquanto o homem possui o terceiro olho da sabedoria, que permite a continuação do relacionamento.

Atrás de Frida encontra-se a Mãe Terra Asteca Cihuacóatl, e atrás dela, Madre Universal que a todos abraça e contém.

Em primeira plano, à esquerda, encontra-se Itzcuintli senhor Xólotl, o guarda dos mortos, que tomou forma de cachorro para observar o mundo.

Nesta pintura Frida reuniu todos os elementos da mitologia mexicana: a vida, a morte, a noite e o dia, o sol, a lua, o homem e a mulher, a deusa da criação da Terra e da Vida.

Publicado na Revista Mundo e Missão de abril 2017
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