Curso para professores – A cidade invisivel

A questão antropológica e seus efeitos na educação

Quando: de 24/02 a 14/04

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O curso situa-se no âmbito da assim dita crise da sociedade pós moderna, que desencadeia uma verdadeira emergência educacional, isto é a falta de um desenvolvimento integral da pessoa, na falta de um amadurecimento da comunidade humana. As duas coisas vão juntas, não sendo possível um amadurecimento da comunidade sem um equivalente amadurecimento da pessoa, e vice versa.

De fato a finalidade da educação, de qualquer relacionamento educativo é acompanhar e incentivar o “florescer” de cada pessoa no “florescer” do “conjunto” humano.

Um florescer que precisa de algumas condições básicas, de hábitos adequados, porque não acontece espontaneamente, mas precisa de cuidado, de muito e constante cuidado.

Indo atrás destas condições prévias, e retomando um artigo escrito por pe Massimo Casaro, aproveitando de um texto do jornalista italiano Andrea Coccia, sobre o significado do tempo livre, na comparação com o otium latino.

Era o mês de maio do ano 1969, dois meses antes de falecer, quando o filósofo Theodor Adorno declarou em programa radiofônico, na Alemanha: Eu não tenho hobbies”. No fogo da sua provocação havia um dos pilares da sociedade ocidental: o tempo livre ou, melhor, o tempo não trabalhado.

Moldado a partir do nobre conceito do otium (ócio) latino, que, porém, ao contrário do nosso tempo livre, era reservado às classes superiores e suas atividades intelectuais, o tempo livre moderno é uma trapaça, uma maneira para transformar as pessoas em consumidores. Quando não produzem, consomem. O mecanismo é perfeito: trabalha e produz, descansa e consome. Não tem nada a ver nem com a felicidade, nem com a realização pessoal. É um tempo para se divertir, esta vez sim no sentido latim do termo devertere, que significa desviar, distrair, descarrilhar.

O verdadeiro tempo livre – se realmente fosse inspirado pelo otium latino – seria o tempo da reflexão, do estudo, da compreensão, das conversações inteligentes. É no ócio que, de fato, se cultiva a consciência, e se projeta a transformação do mundo.

Infelizmente o tempo livre, há quase um século, foi conquistado pelos lobbies dos hobbies, pela indústria do lazer, tornando-se o tempo da “suspensão da consciência”, algo parecido a uma religião com bilhões de adeptos. Mas que, ao contrário das religiões, não precisa de um livro para ser espalhada, porque não tem nenhuma mensagem a ser difundida, sendo o tempo livre só uma ilusão que desencadeia aquela perversa procura daquilo que precisamos não para nos tornarmos humanos, mas para nos tornarmos consumidores.

A saída da pobreza nunca consiste e nunca consistirá só no aumento do poder aquisitivo, mas na tomada de consciência daquilo que somos. Não por nada a grande romancista francesa Marguerite Yourcenas, na sua obra prima Memórias de Adriano, escreveu que o verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos: minhas primeiras pátrias foram os livros. Em menor escala, as escolas.

Refletindo sobre a reforma do Ensino Médio, o professor Juvenal Savian Filho, doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo e professor da Universidade Federal de São Paulo, em entrevista ao Carta Educação, alerta para os prejuízos de uma educação tecnicista, que parece-se entrever na reorganização do curriculum studiorum do ensino médio.

Meu receio é que esta reorganização seja uma porta para à formação de mão-de-obra técnica, sem espírito humanista, sem abertura à cultura. Além da especialização precoce, os jovens serão obrigados a viver sem o que nos caracteriza como seres humanos: o espírito de reflexão e de produção cultural; e quem se dedicar a isso (escolhendo a área de ciências humanas, por exemplo) será visto como um ser de outro mundo, pois os padrões de orientação serão a produção técnica, o pensamento especializado, a economia, a estratificação social – coisas em que nem os países mais ricos apostam mais. Nosso País está retrocedendo mais de um século em termos de visão educativa.

No pano de fundo do curso está, portanto, a espinhosa questão antropológica, que sempre tem que ser enfrentada cada vez as grandes mudanças de época quebram o modelo precedente, para que o ser humano continue sendo o protagonista de sua vida e não só um espetador ou um utensilio a ser usado.

Estamos, de fato, frente a uma espécie de mutação “genética”, devida não apenas à irrupção do mundo virtual, mas também à falida transmissão entre gerações que deveria ser função principal do mundo adulto.

Se, de fato, os conteúdos são universalmente acessíveis, é suficiente digitar no computador para obter informações, aquela que poderíamos definir como sapientia vitae tornou-se, se não inencontrável, extremamente rara.

A traditio se interrompeu.

Daí a devastadora sensação de vazio que, particularmente, os jovens padecem.

Dados divulgados pela BBC Brasil indicam que, entre 1980 e 2014, a taxa de suicídio entre jovens de 15 a 29 anos aumentou 27,2%. A depressão está aumentando em toda a população, inclusive entre os mais jovens. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o país campeão mundial do transtorno de ansiedade e é o quinto em número de pessoas com depressão; o que significa aproximadamente 11,5 milhões de brasileiros.

Deste ponto de vista, a sociedade de certa forma se “unificou”. Não porque melhorou o recíproco reconhecimento, mas pela presença de fenômenos degenerativos semelhantes, reencontráveis em realidades socioeconomicamente distintas e, normalmente, reciprocamente impermeáveis.

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Programa

24 fevereiro, das 9hs às 12hs
A besta humana
Fenomenologia de um ser improvável
Professora Suzana Carneiro

3 Março, das 9hs às 12hs
Além de si mesmo
A criatividade como raiz
Professora Silvia Brandão

10 Março, das 9hs às 12hs
Práxis ou anamneses
A pedagogia de um re-conhecimento
Professora Daniele Batagin

17 Março, das 9hs às 12hs
Mudança de paradigma
Avaliação crítica das propostas pedagógicas
Professora Katia Moura

24 Março, das 9hs às 12hs
O evento religioso
Epifenômeno cultural ou procura de um sentido?
Professor Laez Barbosa da Fonseca

7 Abril, das 9hs às 12hs
Os novos parâmetros curriculares
Inspiração humanista ou derivação tecnocrática?
Professora Vivian Cruz Rodrigues

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