É uma interessante história, pouco ou pouquíssimo conhecida. Narra como os cristãos do Japão, que já há séculos viviam escondidos por causa das perseguições, adotaram a imagem da divindade budista da compaixão que, na China chamava-se Guanyin, e, no Japão, Kannon, para venerarem a Virgem Maria, sem serem descobertos.
É o relato de um “empréstimo” iconográfico que permitiu àqueles cristãos para que continuassem a manter sua identidade em um mundo hostil.

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Estatua de Maria Kannon. Chama atenção o Menino Jesus no colo de sua mãe.

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m 1865, alguns japoneses procuraram o padre francês Bernard Petitjean, das Missões Estrangeiras de Paris, que pouco tempo antes obtivera a permissão para construir uma igreja em Nagasaki, após dois séculos de ferozes perseguições contra os cristãos por parte do Shogunato de Tóquio. O grupo pediu ao missionário, se possível, para “cumprimentar a Senhora e seu Filho” no interior da igreja.
Surpreso, o padre descobriu ter cristãos diante de si, que, escondidos do poder civil, mantiveram e transmitiam a fé em família. Estes eram e ainda são chamados de kakure ou kakure kirishitan, que quer dizer cristãos ocultos (que, do início do século 17 a meados do século 19, viveram a fé em total clandestinidade para fugir das perseguições).
Em 1637, houve uma grande baderna econômica e social em Shimabara, ao sul de Nagasaki.
Ignorando os motivos reais da desordem, a autoridade local logo encontrou e perseguiu os ‘desordeiros’, ou seja, os cristãos, apenas porque estes chegavam a quase 70% da população. A lei que proibia a fé cristã foi abolida somente em 1873, após outra onda de perseguição à qual está ligado o martírio ocorrido em Tsuwano, cidade situada no distrito de Kanoashi.
O papa Pio IX, informado da tragédia, definiu-a como “o milagre do Oriente”. A história é conhecida e o próprio papa Francisco citou -a muitas vezes como “exemplo de uma Igreja fundada sobre leigos conscientes da dignidade do Batismo recebido”. O que pouco se sabe é que tais ‘kakure kirishitan’ celebraram por séculos os antigos ritos diante de uma imagem: a de “Maria Kannon”, ou seja, uma estátua da deusa budista da misericórdia – Kannon para os japoneses, Guanyn para os chineses – na qual identificaram a Virgem Maria.
Graças a este estratagema, os kakure conseguiram enganar as autoridades e manter firme a doutrina.
Um fato curioso: na época, o vigário apostólico do Japão era dom Theodore Forcade. Ele se tornaria bispo de Nevers, na França. Acolheria Bernadette Soubirous no convento local e defenderia a aparição mariana em Lourdes, em 1858. Antes de morrer, dom Forcade disse que “o manto de Maria protegeu o Japão”.
Em ocasião dos 150 anos do reaparecimento dos cristãos japoneses, a cidade de Nagasaki – até hoje com expressiva presença do catolicismo no Japão – inaugurou um museu para celebrar os Kakure Kirishitan.

Esta imagem sinuosa de bodhisattva (ser que, tendo alcançado o estado de perfeição, adia a superação final do sofrimento humano, a fim de aprofundar a sua compaixão por todos os demais seres), absolutamente feminina, foi esculpida seguindo as linhas da presa de elefante. A mão esquerda segura um ramo de salgueiro; a direita, uma cesta com flores de lótus e um peixe. A figura é elaborada com riqueza de detalhes, em particular as vestes. Aos seus pés há um papagaio branco que tem no bico um rolo da sutra (compilação de regras religiosas, morais e cotidianas sob a forma concisa de aforismos extraídos da literatura sagrada indiana). Na cabeça, entre os cabelos, pode-se reconhecer a imagem de Amitabha (ou Amida, um dos Cinco Budas da Meditação. É o buda principal da família de Lótus, de cor vermelha, que purifica o carma do desejo). Depois do desaparecimento dos elefantes da China no século XIV, o marfi m passou a ser importado da África, da Índia e do Sudeste asiático. Os principais centros deste tipo de arte foram as cidades de Pequim, Suzhou e Canton.
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Guanyin, começo do século xx, marfim, altura 64 cm. Museu Povos e Culturas PIME – Milão

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Guanyin final da dinastia Ming (1368-1644) porcelana “branca da China”, altura 39 cm. Museu Povos e Culturas. PIME – Milão

Publicado na Revista Mundo e Missão de agosto 2017
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