Elogio do fracasso

A psicanálise não tece em absoluto o elogio do desempenho. O trabalho da análise é antagonista do narcisismo do aparecer, daquele sucesso do eu que deslumbra e captura os jovens de hoje. A experiência da análise visa, ao contrário, arrancar o invólucro narcisista da imagem para colocar o sujeito diante da verdade do próprio desejo. Tudo na experiência analítica visa reduzir os falsos prestígios do eu, como exprimia o psicanalista francês Jacques-Marie Émile Lacan. A psicanálise não sustenta o culto hipermoderno ao desempenho, mas tece o elogio do fracasso. Ela recolhe os restos, os resíduos, as vidas descartáveis; trabalha sobre causas e sobre vidas perdidas. Para atuar como psicanalista, é preciso amar as causas perdidas.

Mas o que significa tecer um elogio do fracasso? O fracasso não é somente insucesso, derrota ou desvio. Ou melhor, é tudo isso, mas é também o seu contrário. O fracasso, de acordo com Lacan, é próprio do funcionamento do inconsciente. Eis sua definição de ato falho: um ato falho é o ato mais bem-sucedido possível. Por quê? Porque é um ato falho para o eu, mas é bem-sucedido para o sujeito do inconsciente. O mesmo acontece com uma desatenção ou um lapso. O fracasso é uma falha saudável da eficiência do desempenho. E, nesse sentido, a juventude é o tempo do fracasso, ou melhor, é o tempo no qual o fracasso deveria ser permitido. Aquele tempo que exige o tempo do fracasso, do erro, da perda, da derrota, do repensar, da dúvida, da indecisão, das decisões erradas, dos entusiasmos que se dissolvem e se convertem em desilusões… da traição e da paixão.

Os jovens estão expostos ao fracasso porque o autêntico caminho da formação é o caminho do fracasso. Assim ensinava Hegel e ensinam os textos bíblicos, antes da psicanálise. É o irmão mais novo que, na célebre parábola evangélica (Lc 15,11-32), pede ao pai sua parte da herança antecipadamente para gastar no prazer mais obtuso. A formação é errância, descontinuidade, encontro, ruptura com o que é próprio da família. No caminho de uma vida, há sempre uma queda do cavalo, um encontro com a terra, um cara a cara com a borda dura da realidade. Nesse sentido, os jovens são mais expostos a doenças do inconsciente. Para que aconteça um encontro com a verdade do desejo, é necessário desorientar-se, falhar, perder-se. Quem jamais se perdeu não sabe o que é reencontrar-se… Eis porque Lacan dizia que contava somente com eles, com os jovens, e neles colocava a sua esperança sobre o futuro da psicanálise. Os jovens sabem perder-se como ninguém… sabem perder-se e reencontrar-se. Mas é fundamental a presença dos adultos para que isso aconteça. É necessária uma casa, um laço, uma pertença para que o fracasso dê seus frutos. É necessário que os pais saibam tolerar as angústias desse ir e vir.

O nosso elogio do fracasso subverte drasticamente a ilusão do discurso do capitalista: “o fracassado é o objeto”, afirma Lacan. Isso significa que o objeto não se apresenta como aquilo que pode preencher a “falta de ser” que tenha o sujeito, mas que o encontro com o objeto é estruturalmente marcado por uma condição de fracasso. O objeto é sempre fracassado, é sempre insatisfatório, é sempre um vazio, uma lacuna. A pulsão não se limita a ele, mas deve contorná-lo. O objeto é fracassado porque nunca é alcançado, porque se alcança somente a sua sombra. É esse o fundamento da teoria lacaniana da inexistência da relação sexual. O ser humano é condenado a enfrentar o sexo sem possuir a chave para decifrar o seu mistério. Se no mundo animal essa chave é inscrita biologicamente, determinada geneticamente, válida universalmente, para o ser humano não existe nenhuma natureza que a regule.

O que é o incômodo da juventude na civilização dominada pelo discurso capitalista e pela sua “liberdade imaginária”, da liberdade do prazer, que na realidade é uma manifestação do superego, ou seja, da instância que nega toda forma possível de liberdade, que torna escravos? Essa liberdade não é o fermento do desejo, para usar uma imagem evangélica, mas uma nova forma de escravidão que rejeita toda forma de responsabilidade.

O discurso da psicanálise é antagonista ao do capitalista porque a psicanálise denuncia o objeto como fracassado, enquanto o discurso do capitalista sustenta o poder fetichista, idolátrico, mesmo que astutamente desfrute a sua inconsistência. Juntar-se ao fracasso do objeto, ao fracasso da relação sexual, ao fracasso próprio do sujeito do inconsciente é a única possibilidade para tentar fazer surgir novamente o desejo e a sua Lei.

Massimo Recalcati


massimo-recalcatiMassimo Recalcati (28 de novembro de 1959) é um psicanalista italiano. Formou-se em filosofia com Franco Fergnani pela Universidade de Milão e especializou-se em psicologia social. Foi professor nas universidades de Milão, Pádua, Urbino, Bergamo e Losanna e desenvolveu atividades de supervisão clínica em instituições da saúde mental. Também colaborou com revistas especializadas (La Psicoanalisi, LETTERA, Revue de la Cause Freudienne, Psychanalyse, Clinique Lacanienne) e com as páginas culturais de Il Manifesto (O Manifesto, 2001-2011) e de La Repubblica. Atualmente, ensina psicopatologia do comportamento alimentar na Universidade de Pavia, é supervisor clinico na divisão de neuropsiquiatria infantil do Hospital Santa Úrsula de Bolonha e dirige a coleção de estudos de psicanálise aplicada Jonas, pela Franco Angeli, e Arcipelago, pela Bruno Mondadori.

FONTE: Recalcati M., Che cosa resta del padre? Raffaello Cortina Editore, pág. 111-115

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