Eu, padre, na mira dos traficantes

“Xi! Eles ficaram com raiva de novo!”

 

alchetron

A
mensagem lhe chega exatamente durante a entrevista. Enquanto fala,  padre Alejandro Solalinde (foto) entrega o celular a um dos quatro agentes de segurança que procuram protegê-lo desde 2011. “Assim, pode advertir-me em caso de emergência”, explica. É o que o policial faz. Se aproxima com ares circunspectos e mostra a mensagem, entregue via Twitter. No breve vídeo se vê uma folha branca na qual está escrito o seu nome: Alejandro Solalinde Guerra. Abaixo, uma fila de projéteis. Uma voz camuflada explica, para evitar equívocos: “Ou você fecha a boca, padre, ou nós a fecharemos” Não se trata de uma brincadeira de mau gosto. A intimidação tem o perfeito “estilo narcotráfico”. Os agentes de segurança estão visivelmente preocupados. Ele, não! Reaje com desdém. Depois, acrescenta: “Já me acostumei”. Este sacerdote de 72 anos colecionou mais de uma ameaça de morte: os senhores do narcotráfico mexicano ofereceram somas cada vez maiores, até um milhão de dólares, ao matador de aluguel que o eliminasse.

Assassinos e vítimas

Os ataques das máfias a padres, religiosos e catequistas se tornaram dramaticamente comuns no México da guerra às drogas. Os meios de comunicação rebatizaram assim o conflito – não com toda a realeza – que, há uma década, devasta o país. Os vários bandos criminosos – que cresceram no último meio século graças à proteção e à conivência de amplos setores de instituições – se enfrentam pelo controle das rotas mundiais do tráfico de drogas. Uma guerra que já vitimou 250 mil pessoas, além de gerar um saldo de 27 mil desaparecidos e centenas de milhares de evacuados. Os traficantes combatem entre si com a ajuda de setores corruptos do Estado. A população civil, ao contrário, fica completamente indefesa. Para esta, com frequência especialmente nas comunidades rurais, os sacerdotes são o único ponto de referência. Isto explica porque estes últimos se transformam em alvo, assim como os ativistas estão para os direitos humanos, e os jornalistas, para a busca da verdade. Há oito anos o México é a nação mais perigosa do mundo para quem desenvolve o ministério sacerdotal. Desde 2014, em especial, foram massacrados quinze padres, pelo menos. Muitos outros são vítimas de sequestros-relâmpagos, agressões, verdadeiras e claras campanhas de difamação.

O alvo

mauka makai trip

Contra o padre Solalinde existe, todavia, uma sanha particular. Culpa da “roda de compromissos” que, desde 2007, o sacerdote assumiu, de modo determinante, para levar adiante: os sequestros de migrantes no Istmo de Tehuantepec, no sul do país. A despeito do imaginário comum – e da retórica do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump –, o México não é só terra de emigração. É ponto obrigatório de passagem para cerca de meio milhão de centro-americanos que, todo ano, procura alcançar ilegalmente os Estados Unidos, em fuga da violência que inunda países como El Salvador, Honduras e Guatemala. Grande parte de tais “fugitivos” – ao menos dez mil cada seis meses, segundo as cifras mais cautelosas –, acabam nas redes dos traficantes.

Padre Alejandro, os centro-americanos irregulares são pessoas pobres. Como os traficantes podem tirar proveito com sua captura? 

“Os chefes do tráfico de drogas encaram a realidade em termos de possível lucro. Tudo é mercadoria para eles, inclusive o ser humano. Eles não se limitam a traficar entorpecentes: diversificam o trabalho para maximizar o lucro. Por esta ótica, os migrantes são um butim cobiçado. Em média, ‘rendem’ cerca de 50 milhões de dólares por ano. Como? São capturados às dezenas durante o trajeto. Em seguida, passam por uma primeira ‘seleção’: os idosos ‘inúteis’ são imediatamente eliminados. Aqueles que têm um parente ou um amigo nos Estados Unidos são obrigados a chamá-lo. Este último escuta do capturado, por telefone, gritos sob tortura, solicitando o pedido de resgate – entre dois e sete mil dólares, porque em geral não pode dar mais – e, para não ouvir mais aquilo, é obrigado a despachar o dinheiro, muitas vezes ao custo de se endividar para o resto da vida.

Os reféns mais jovens e robustos são recrutados à força pelos traficantes e empregados como ‘bois de piranha’ nos embates com os rivais. As mulheres são ‘negociadas’ no mercado da prostituição, as crianças no da pedofilia ou das adoções clandestinas.
Enfim  se a máfia tem os contatos certos, os migrantes irregulares são utilizados como ‘reservas de órgãos’. Tenho certeza que há pretensas ‘clínicas’ ao longo da fronteira, onde um rim ou um fígado valham entre 100 e 150 mil dólares. E eu vi pessoalmente cadáveres de migrantes dos quais foram removidos  vários órgãos. Não sou o único. As autoridades também sabem disso. Até hoje, porém, elas fizeram muito pouco para proteger os migrantes irregulares”.

O que pode um padre fazer frente a máfias tão poderosas, encravadas até no coração do

Estado?

sociedade migrante

“Eu moro próximo de Ixtepec, no estado de Oaxaca. Um dos locais de passagem dos migrantes: por lá passam os trens mercantis, que vão ao norte. A viagem não é direta. A locomotiva chega e estaciona. Outra continua o percurso. Não se sabe quando: o próximo trem pode chegar em questão de hora, dias, até em uma semana. Enquanto isso, os migrantes irregulares permanecem na estação, à mercê de traficantes. Muitas vezes eu os via por lá, mas nunca prestava atenção neles. Até que, numa manhã, improvisamente ‘caiu a minha ficha’: em minha frente surgiram mulheres, homens, crianças, todos indefesos, empobrecidos, abandonados. Não tive como fugir daquilo. Fui ao bispo e lhe pedi permissão para deixar a paróquia e de me dedicar integralmente aos migrantes irregulares. Por fim, ele me liberou. Eu já tinha 62 anos e, até então, era um ‘padre burguês’: adorava os estudos, as viagens, a vida cômoda.. Entretanto, me faltava alguma coisa: não conseguia encontrar o meu modo de ser sacerdote. Deus me fez encontrar os migrantes para que eu me descobrisse. Ok! Eu não tinha ideia em que vespeiro estaria me metendo…”

Apesar de tantas dificuldades, porém, a casa-refúgio festejou o décimo ano de vida. E a sua presença, unida à mobilização por ela proposta, obrigou os traficantes a suspender os raptos naquela região…

“Infelizmente, porém, eles se colocaram mais ao norte. Eu gostaria de dizer que não há mais raptos. Mas, não. Em média, anualmente passam pelo refúgio 20 mil irregulares. A composição do êxodo mudou: na medida em que aumenta a violência na América Central, aumenta também a porcentagem de mulheres e crianças desacompanhadas. Os riscos para estes últimos são ainda maiores. Por isso, no ano passado criamos na capital um centro que as ajuda a obter asilo e a permanecer no México, completando os estudos e aprendendo um ofício”.

Pelo seu trabalho, neste ano o seu nome foi incluído pelo Comitê de Oslo na lista dos candidatos ao Prêmio Nobel da Paz.

“É uma grande honra, ao menos quanto à responsabilidade. O dinheiro não me interessa: o que tenho, divido-o com os
migrantes irregulares. A fama, ainda menos. Estou, porém, feliz pela escolha de Oslo, porque me fortalece aos olhos da opinião pública pela defesa dos direitos dos migrantes”.

A determinação de Trump de construir um muro na fronteira México –EUA abriu os olhos globais sobre a questão dos migrantes. Além da retórica, qual será o real “efeito Donald”?

“Donald Trump é uma figura de passagem. Não creio que durará por longo tempo: as suas tomadas de posição são incômodas até para as instituições estadunidenses. De qualquer modo, muro ou não muro, o presidente perderá a guerra contra os migrantes. Estes são mais fortes. Deus caminha ao lado deles. Os migrantes são uma luz na escuridão do sistema dominante que tirou do próprio centro o Senhor da Vida e o substituiu pelo ídolo-dinheiro. O seu meter-se em marcha é um ato de fé no futuro. E isto exige coragem. Muita coragem. Aquela coragem que nós, perenemente assustados pelo pesadelo de perder dinheiro, bem-estar e certezas, perdemos.
E o terror nos torna ainda mais escravos deste sistema desumanizante. Fizeram-nos crer na falsa dicotomia: ‘Ou nós, ou eles’. A mão estendida dos sem documentos nos dá a ocasião de experimentar o que o Evangelho ensina: ‘nós e eles’. Juntos. Certo, o preço da migração é alto. Os migrantes irregulares pagam-no na própria pele, com indizíveis sofrimentos que, infelizmente, hoje, a política trumpiana faz aumentar. Mas uma coisa é certa: Trump não cessará o fluxo. Os traficantes não desapareceram com sua carga de atrocidades. Não será um muro que irá acabar com isso, ainda que alto, por mais alto e inexpugnável que Washington se esforce para construir”.

O senhor está na mira dos traficantes. Não tem medo de ser assassinado, como foram tantos de seus coirmãos?

Imigrantes

“Não tenho medo. Tenho fé em Deus. E é a fé no Deus da vida e no seu projeto para o mundo – o Reino – a me impulsionar para frente. Não poderia ser de outra forma.Não sou um homem particularmente bom ou corajoso. Não sou um super-herói. É a Graça que me estimula. Que me acompanha nos momentos difíceis, dando-me força. Que me educa a uma fé encarnada na história, ainda que esta seja penosa e cruenta. Se eu deixasse de denunciar os abusos perpetrados contra os mais indefesos entre os meus irmãos – os migrantes, portanto – trairia o meu ministério. Tenho mais medo disto do que dos traficantes e de seus cúmplices no interior de suas armadilhas criminosas”.

Publicado na Revista Mundo e Missão de setembro 2017
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