Frágeis e religiosos um binômio vitorioso

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Zigmunt Bauman

Para Zygmunt Bauman a eternidade de Deus se reflete na nossa insuficiência: tal estado de coisas nos leva a exigir um sentido para a vida

“Não há mais religião… Deus morreu”.

Isto é repetido continuamente, e qualquer um daqueles que se arvoram no direito de afirmar coisas do gênero tem a pretensão de validá-las, inclusive com a autoridade dos fatos: quantos recém-nascidos são, hoje, levados à igreja para serem batizados? E não é verdade que caiu o número de pessoas que frequentavam a Missa dominical, pelo menos na Inglaterra e nos países nórdicos? Tais dados são escolhidos exatamente com a intenção de apoiar a tese, e a sua reiterada repetição pretende, como ocorre com todos os demais preconceitos, demonstrar que a afirmação é bem fundada e considerada verdadeira.  Mas, tais preconceitos cumprem a tarefa atribuída a eles? Talvez a cumprissem, se não existisse o enorme e crescente volume de outros fatos que sugerem – e demonstram – o diagnóstico exatamente oposto: o de que a religião existe e continua a ter força e influência, e que os obituários de Deus são, no mínimo, absolutamente prematuros.

Muita água se passou sob as pontes de todos os rios do mundo desde que Friedrich Nietzsche, um dos gigantes da filosofia moderna, escreveu no livro
A Gaia Ciência (1882) que “Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará este sangue? Em que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele?”.

Mas Deus ainda está bem vivo, como sem dúvida ainda estão – e também bem visíveis – as religiões, que se elevam sobre sua onipresença imortal: contrariamente à orgulhosa reivindicação da mente moderna, segundo a qual nós, seres humanos, estamos plenamente em condições de segurar, compreender, descrever, enfrentar e gerenciar o mundo e nossa presença nele em autonomia total; e contrariamente à nossa proclamada intenção de colocar o mundo sob nossa administração única, homens, investidos como estamos de razão e de seus dois gêmeos: a ciência e a tecnologia. Em nítido contraste com o que os homens pensam, aquelas armas não conseguem nos dotar, humanos mortais, da onipotência – que é o que define a imortalidade de Deus – e é cada vez menos provável que, com todas as suas descobertas e terríveis invenções, jamais os homens possam um dia tornar-se imortais.

A impressão é que, se Deus alguma vez “viesse a morrer”, isto é, se ele fosse exilado do nosso pensamento, expatriado de nossas vidas e deixasse de ser ponto de referência e de apelo, e fosse substancialmente esquecido, tal anomalia aconteceria somente junto com a morte da humanidade. Se nós quisermos que seja assim mesmo, e assim deve ser, a resposta é que Deus está para a nossa insuficiência, insuficiência de nós, seres humanos – segundo a memorável formulação do grande filósofo polonês Leszek Kolakowski: insuficiência do nosso pensamento e da nossa capacidade prática; insuficiência que, totalmente improvável, possa ser jamais superada.

Há fenômenos dos quais não podemos partilhar, como, por exemplo, a eternidade e o infinito, ou porque e para que existimos, e por quê razão existe alguma coisa maior que o nada, fenômeno e interrogações que, não obstante as maiores mentes humanas, entre as quais a nossa razão, a nossa ciência e tecnologia agem e aos quais elas são obrigadas a ficar confinadas. E há fenômenos dos quais devemos, antes ou depois, tomar consciência, que jamais se submetem ao controle e administração de seres humanos. Em palavras pobres, existem limites insuperáveis àquilo que podemos saber e o que podemos fazer. O fato que Deus está para estes dois tipos de fenômenos e, junto com o fato de que estamos condenados a permanecermos insuficientes, assegura, no seu entrelaçamento, a eterna presença de Deus na condição essencial do homem. Em outras palavras: a eternidade de Deus e a eternidade das religiões, que procuram tornar vivencial a vida vivida com a sabedoria de todos estes paradoxos, são garantidas pela imortalidade (se medida com as normas humanas) da endêmica insuficiência humana.

morris-west Do alto da montanhaNenhuma crença define Deus. Nenhuma crença pode definir Deus. Nenhum conjunto de leis, nenhum sistema moral pode conter ou controlar as massas de animais humanos disseminados pelo planeta, impelidas por primitivos instintos de sobrevivência. O mistério é que os seres humanos procuram a Deus, assim como uma semente semeada na terra escura impele a brotação para cima, a fim de se expor ao sol. É esta instintiva procura pela energia da vida, este ato de voltar-se para a fonte do ser que constitui a natureza da experiência humana. É isto que torna o nascimento importante e a morte uma apropriada conclusão da vida.

Morris West - “Do Alto da Montanha - O Testemunho de um peregrino”

Zygmunt Bauman é sociólogo polonês. Faleceu no dia 9 de janeiro deste ano.
Texto original: “Fragili e religiosi, un binomio vincente”, Avvenire, 15/11/16.
Publicado na Revista Mundo e Missão de abril 2017
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