Hawhzin: a jovem que administra a reconstrução de Kobane

Uma imagem marcou a vida de Hawhzin Azeel: a de uma jovem assassinada por amar um rapaz que a sua família não aceitava. “Eu tinha quatro ou cinco anos. Lembro-me de um vestido branco manchado de vermelho, assim como vermelho ficou o quintal de casa. Minha mãe, agachada, tentava limpar aquele vermelho que não queria sumir. A morta era a minha prima Jihan. Não tinha mais de dezesseis anos. A enésima vítima de um delito de honra, tão absurdo quanto violento. E a lembrança dela me ajuda a não esquecer que a sociedade curda, apesar do seu socialismo leigo, de suas mulheres-soldado, é conservadora e tribal e de quanto ainda precisa trabalhar para reconhecer a dignidade das mulheres”.

Hawzin Azeel tem só 31 anos e já chefia o Time para a Reconstrução de Kobane, enfrentando dificuldades enormes, a partir do fechamento total das fronteiras que os turcos impuseram e da guerra com o Estado Islâmico. Cimento, barras de ferro, escavadeiras, caminhões e materiais de construção não conseguem chegar.

Azeel foi escolhida porque, sendo que em Kobane não há recursos necessários à sua reconstrução, é preciso encontrá-los nas comunidades da diáspora curda e em ONGs internacionais. E ela é a pessoa certa. Curda de origem iraquiana, fugiu com a família quando tropas do ditador Saddam Hussein bombardearam a cidade de Halabja com armas químicas em 1988. Foi para o Irã e, finalmente, para a Austrália, onde doutorou-se em Relações Internacionais. Fala perfeitamente o inglês, sem perder a sensibilidade e o jeito da sociedade curda.

Seu pai é um engenheiro que, quando jovem, se enriquecera no partido baathista (Partido Socialista Árabe Baath, fundado na Síria). Mas que fugiu quando Hussein lançou campanhas para arabizar as populações ao norte do Iraque.

É do pai que Hawzin herdou a fé socialista e a coerência do militante. “Em casa comíamos pão e socialismo curdo. Todos, muito teimosos, muito ideológicos”, confessa sorrindo. Não tira férias, não tem salário, sua vida privada coincide com o trabalho, e tudo o que ganha, doa ao seu comitê ou ao partido. “Não temos alternativas. Nós, curdos, estamos numa reviravolta da nossa história. Não podemos aceitar a derrota. Seria a enésima tragédia”.

Lançou a reconstrução de dois bairros em uma cidade onde 80% das casas foram danificadas e quase 50% foram destruídas. Por isso, programou uma grande conferência europeia para recolher fundos, para refletir sobre as mulheres que, do Ocidente, vão para o Oriente Médio para se juntarem ao Estado Islâmico. “Não consigo vê-las totalmente como inimigas. Também elas são vítimas. Entretanto, submetem-se aos homens, vítimas das dinâmicas das sociedades capitalistas, como ocorre no Terceiro Mundo, ainda que de forma diferente”.

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