O caminho do homem

N
a Itália, aproveitei muito deste livrinho, e quando dava palestras, muitas vezes recorria à sua sabedoria. E a história que ele trata sempre atraiu os mais jovens. Este não é um livro difícil, abstrato, complicado, pelo contrário, é um livro sábio e saboroso que pode e deve ser degustado aos poucos. Sessenta páginas que falam do ser humano, da sua educação e do seu estar no mundo.

Sobre este livro, Hermann Hesse escreveu: “É o mais lindo de tudo que já li até então. Vou deixar que este dom, tão precioso e inexaurível, continue me falando…”. Nos seis capítulos que compõem a obra, Martin Buber parte do ensinamento chassídico, um movimento místico do hebraísmo da Europa oriental que nasceu na metade do século dezoito. Reporta episódios, ditados e observações feitas pelos diferentes rabinos para, depois, tirar considerações de grande agudeza e profundidade sobre a condição humana.

Buber utiliza os contos chassídicos para indicar um verdadeiro itinerário educativo, uma forma de procura de si mesmo no relacionamento com o mundo, com os outros e com Deus. Como para dizer que a relação, aparentemente posterior à afirmação de si mesmo, de fato, e mais profundamente, nos precede, porque é a nossa origem e o nosso fim.

O início do livro já é emblemático. O autor começa com um conto em que o chefe dos guardas questiona um rabino aprisionado injustamente sobre a pergunta que Deus faz a Adão: “Onde estás?” (Gn 3,9). A finalidade da pergunta-armadilha é demonstrar que Deus, quando faz esta pergunta a Adão, demonstra que não é onisciente. Mas o rabino muda o sentido da pergunta: “Se Deus faz essa pergunta, ele não quer saber algo que ainda não sabia… Ele quer provocar algo nessa pessoa, algo que pode ser provocado só nesta maneira – com a condição de que a pergunta lhe atinja o coração; de que a pessoa se permita ser atingida no coração” (O caminho do homem, p. 10).

Há, então, uma pergunta que nos precede, porque há alguém que nos procura. Não para nos julgar, mas para nos oferecer a vida. A vida, de fato, está totalmente na vontade de responder, isto é, iniciar o nosso verdadeiro caminho de libertação.

O caminho do homemTrecho do livro O caminho do homem Cada homem traz algo novo ao mundo, algo que ainda não existia, algo sério e único. “A obrigação de cada homem em Israel é saber e refletir sobre seu caráter único em seu modo de ser e sobre o fato de nunca ter existido ninguém igual a ele sobre a Terra. Se alguém igual já houvesse habitado a Terra, ele não precisaria estar aqui. Cada um é algo novo nesta Terra e é chamado para realizar sua particularidade neste mundo. Pois, na verdade, a vinda do Messias se protela porque isso não acontece”. Essa tarefa principal é a concretização única e específica de suas potencialidades, e não a repetição de algo que outro, ainda que seja o maior, já tenha feito. Certa vez, o sábio rabi Bunam, idoso e quase cego, disse: “Não quero trocar de lugar com o patriarca Abraão. Qual a vantagem para Deus se o substituto do patriarca Abraão fosse como o cego Bunarn e o cego Bunam fosse como Abraão?”. E o mesmo foi dito, com uma ênfase ainda maior, pelo rabi Sussja, ao falar pouco antes da morte: “No próximo mundo, ninguém vai me perguntar: ‘Por que você não foi Moisés?’, mas vão me perguntar: ‘Por que você não foi Sussja?'”. Temos diante de nós um ensinamento baseado no fato de que os homens são essencialmente diferentes uns dos outros e que não pretende torná-los iguais. Todos os homens têm acesso a Deus, mas esse acesso é diferente para cada um. A grande perspectiva da humanidade reside exatamente na diversidade dos homens, na diversidade de suas características e aptidões. A oniabrangência de Deus se manifesta na diversidade infinita de caminhos que levam até ele, cada um dos quais está aberto a qualquer homem.

O caminho do homem - Martin Buber

Martin Buber (Viena, 8 de fevereiro de 1878 – 13 de junho de 1965).
Foi filósofo, escritor e pedagogo austríaco naturalizado israelense. Nasceu em uma família judaica.
Publicado no Jornal Transcender de janeiro/fevereiro 2017

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