O cotidiano vive nas cores do grafite

O cotidiano vive nas cores do grafite

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ontar a história da arte de rua de São Paulo significa dedicar um espaço exclusivo ao grafite e à pichação. Basta dar um giro de 360º em qualquer rua da capital para encontrar um grafite ou picho marcando as paredes, muros, vigas ou pontes. Bonita ou não, a arte urbana gera muita controvérsia na sociedade e não é capaz de agradar a gregos e troianos. Afinal de contas, grafite pode ou não ser considerado arte?

O debate ganhou força na opinião pública paulistana após o prefeito João Dória Jr. anunciar que os painéis de grafites da avenida 23 de Maio seriam apagadas em uma das etapas do programa “São Paulo Cidade Linda”. O argumento do prefeito para apagar os painéis da 23 de Maio era o de que muitos deles estavam pichados.

A decisão foi alvo de inúmeras críticas, pois aquele que é considerado o maior painel de arte urbana do mundo seria substituído por uma tinta cinza. Os artistas de rua pedem autorização para uma intervenção artística na avenida desde o governo de Jânio Quadros (1986 a 1989), porém a autorização só veio mesmo na prefeitura de Fernando Haddad, em 2016. “A avenida 23 de Maio foi o ápice do movimento artístico urbano paulistano”, relembrou Rui Amaral em entrevista à BBC Brasil. Amaral é autor do primeiro grafite pintado à mão em São Paulo, em 1982.

Até 2011, o grafite era considerado crime ambiental e vandalismo, hoje é visto como uma expressão da arte urbana; o picho, por sua vez, costuma trazer intervenções agressivas, xingamentos, além de assinaturas pessoais ou de gangues e, por esses motivos, continua sendo tratado como crime.

Hoje, o grafite tem uma forte aceitação na sociedade, mesmo com críticas. Ele perdeu a má impressão de ser uma arte marginal, ou algo que destrói a cidade.

Grafite x pichação

De acordo com artigo do professor Rodrigo Cassio de Oliveira, o grafite recupera o ideal de uma arte capaz de gerar experiências estéticas que modificam a nossa percepção da cidade. “Nesse aspecto, o grafite e as pichações já se mostram fatalmente distintos. Ainda que alguém considerasse que um prédio, muro ou escultura pichados são experiências estéticas oferecidas aos transeuntes, ele não seria capaz de provar que a pichação pode romper com a percepção comum da cidade. Pelo contrário, as pichações aprofundam a experiência da cidade como ruína e destruição, banalizando-se rapidamente. Os grafites, por sua vez, são capazes de criar pequenos novos mundos”, afirma.

Para Alexandre Barbosa Pereira, pesquisador de Antropologia Urbana da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) separar grafite da pichação contribui para que o grafite comece a ser aceito, mas apenas como forma de combate ao picho. “O grafite, mais associado à arte, é mais facilmente entendido como forma de ação do Estado e mesmo do mercado, já a pichação, execrada pela maioria da população, é uma máquina de guerra, nômade e difícil de ser capturada. Assim, fica mais fácil criminalizar esta e mesmo criar certo pânico moral em torno dela como forma de marketing político e publicidade pessoal”, explica.

A arena onde tudo acontece é a rua, e a tentativa de diversos grafiteiros é expressar e apresentar à sociedade a realidade das ruas e do cotidiano. Ela é fruto de um esforço diário para contar histórias. Apesar das diversas críticas que ainda sofre, o grafite é aceito pela maior parte da sociedade como uma expressão artística genuína. Ela explora todas as possibilidades do cotidiano, denuncia desigualdades e apresenta um novo mundo. “Por trás de um grafite existe uma história que não pode ser ignorada. Ignorar a história de uma obra de arte é um tiro no pé”, disse a grafiteira Bárbara Goys à BBC Brasil.

Para as ruas do mundo

O grafite de São Paulo é considerado um dos melhores do mundo. São diversos os artista que tomaram conta de espaços, ruas, avenidas, prédios e em vários cantos do mundo. Grafiteiros como Os Gêmeos, Kobra, Zezão, Paulo Ito, Nina Pandolfo e Mag Magrela, além de obras no Brasil, têm artes feitas na Alemanha, EUA, França, Inglaterra entre outros países.

Santa Ceia do grafiteiro Paulo Ito Alemanha

Santa Ceia de Paulo Ito – Alemanha

Grafiteiros para conhecer

Criola

CRIOLA

Utiliza seu trabalho em Belo Horizonte para questionar os padrões de beleza impostos às mulheres, bem como fortalecer a identidade e a representatividade afro-brasileira.

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DERLON

Tem como marca os traços de xilogravura e arte popular. Utilizando poucas cores, criou uma simbiose da intervenção urbana com um dos principais meios de comunicação impressa da cultura popular.

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NOVE

Faz uso de elementos digitais e orgânicos sincronizados através de elementos geométricos, que ganham cores vibrantes através da aquarela que escorre sempre ao fundo de suas obras.

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NINA PANDOLFO

Nasceu no interior de São Paulo e decidiu viver de sua arte aos 24 anos de idade. Seus desenhos são coloridos, cheios de vida e com uma grande constância de figuras femininas.

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PANMELA CASTRO

Costuma questionar a liberdade feminina, principalmente naquilo que diz respeito ao corpo, sexualidade e subjetividade da mulher.

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ALEX SENNA

Os riscos simples em preto e branco do artista, que é daltônico, foram influenciados pelas histórias em quadrinhos e ilustrações e retratam as relações humanas com elementos do imaginário infantil.

Publicado no Jornal Transcender de abril/maio 2017
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