O significado da festa

festa

Festejar é algo espontâneo e necessário, mas nem por isso dispensa a procura do seu significado. No âmbito religioso, a festa é algo misterioso, como se prometesse mais do que se experimenta.

D
esde criança sempre tive a impressão que o significado da festa se encontrasse bem além de um simples descanso ou de um divertimento superficial, de uma efêmera suspensão do ritmo infernal da vida.

A melancolia da tarde

A melancolia é um sentimento próximo do que se experimenta quando não se alcança aquilo que esperávamos. A festa acabou e não aconteceu o “milagre”. Tudo se torna como antes, com o mesmo pesadelo, as mesmas fadigas, os mesmos fracassos. É por isso que alguns, ou muitos, tentam prolongar artificialmente a ebriedade festiva? Pode ser que sim. Porque a festa desencadeia um sentimento forte e violento que condói a alma, que dá vigor a tudo o que jaz no profundo, esquecido ou sepultado sob a linearidade banal do tempo que flui.

De fato, na festa explode o que, no dia a dia cansativo, atarefado, está sob a cinza, quase um sopro de vento que reacende a brasa aparentemente apagada. Revigora-a e a desencadeia. E o incêndio devora insatisfazível, jogando na cara aquela “falta” que aparece só no tempo “vazio”, não preenchido por todas as coisas que, na corrida cotidiana, impedem de pensar. É assim que se reconhece, como no mito grego, que Cronos, o tempo, devora os seus filhos.

Mas há outra consideração a ser feita.

O tempo devorador, enquanto rói o sentido da vida, eterniza aqueles que foram, particularmente, os nossos erros. E nós erramos nas escolhas, nos relacionamentos. Impiedosamente, o tempo nos mostra que não estamos à altura de nós mesmos.

De fato, além do sentido do limite, que faz de nós seres mortais, nos aflige também o desgosto de não ter feito ou não ter sido o que era justo. E tudo isso por falta de lucidez, de força, de coragem, de perseverança.

Sentido, espera, memória

Tentei unir três palavras: sentido, espera, memória. Formam como que um círculo que expressa, rodeando, o ser humano. Porque é exatamente a necessidade de sentido que alimenta a espera que, por sua vez, precisa de memória.

Mas o que é a memória? É algo mais denso, profundo, do que a simples lembrança. A lembrança, de fato, agita apenas o sentimento da perda: dos anos que passaram, da juventude que se foi, de uma pessoa que não mais existe. A lembrança se projeta sempre para trás. Ao contrário da memória que, não obstante “recupere” algo acontecido, encontra-se sempre no presente, porque possui a força de comunicar a vida, revelando a sua substância.

O shabbath e o domingo

Mesa de Pessach

Tentando desabrochar melhor o conteúdo da memória, recuperei alguns trechos de antigas leituras.

O primeiro, de autoria do escritor judeu tcheco Jiri Langer, descreve o começo do shabbath, o sábado, em uma comunidade chassidim da Europa Oriental.

“A multidão dos crentes flutua e encalça, espumeja e tumultua como um rio de lava fervente. Improvisamente todos, como obedecendo a uma ordem, param e voltam o rosto na direção do ocidente, da porta da sinagoga, baixando a cabeça à espera. Naquele momento entra invisível a Rainha Shabbath e oferece a cada um o dom precioso do céu: uma alma nova, festiva” (Jiri Langer, As nove portas).

O segundo é também de um escritor judeu, Elias Canetti, que na sua autobiografia conta de quando, criança, escutava o conto do êxodo na noite de Pessach, da Páscoa judaica.

“Sendo o mais novo da família, eu tinha a função de pronunciar o manischtanah. (…) No início, o mais jovem dos convidados pergunta sobre o significado dos preparativos: pão sem fermento, ervas amargas e todas as outras iguarias incomuns que se encontram na mesa. O narrador – neste caso o meu avô -, responde à pergunta com o longo relato do êxodo do Egito” (Elias Canetti, A língua posta a salvo, editor Campos das Letras).

O terceiro é, de novo, um autor judeu, o filósofo Franz Rosenzweig, que, na sua obra-prima fala, e é bem estranho, do sentido do domingo cristão.

“No domingo, o cristão acumula o seu tesouro de fortaleza espiritual, que consumirá ao longo da semana (…). A consciência cristã sempre “se arremessa, do centro da vida no qual se encontra, para a direção do início. A cruz é sempre o início. É sempre a origem das coordenadas do mundo. Assim como daí se inicia a contagem cristã do tempo, também a fé sempre encontra novo lance no mesmo ponto.

O cristão é para sempre um homem que se refaz; cumprir e terminar não são tarefas dele: se o começo é bom, tudo é bom. Esta é a eterna juventude do cristão. Na verdade, cada cristão vive, ainda hoje, o seu cristianismo como se fosse o primeiro cristão.

E assim o domingo, com esta força que irradia a sua bênção sobre o trabalho semanal, é a imagem correta da força do cristianismo que se expande, sempre nova, pelo mundo” (Franz Rosenzweig, A estrela da redenção).

Celebração do Holi

Celebração do Holi, dos Hindus, que comemora a chegada da Primavera. Foto de Anthony Kurtz

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