Simin Behbahani

“A Leoa do Irã”

Simin Behbahani
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arinhosamente chamada de “Leoa do Irã”, Simin Behbahani morreu em agosto de 2014, aos 87 anos, depois de uma vida dedicada à luta pelos direitos humanos, pela liberdade de expressão, como também pela inovação poética naquele país do Oriente Médio. Simin recebeu muitos prêmios internacionais relacionados aos direitos humanos e à literatura. Um dos mais importantes prêmios de literatura que ela recebeu foi o Bita Daryabari, criado em 2008 pela Universidade de Stanford, na Califórnia.  A “Leoa do Irã” também foi indicada duas vezes ao Nobel de Literatura (1999 e 2002).

Simin Behbahani era uma figura ativa dentro da cultura iraniana e se tornou conhecida por escrever principalmente na antiga forma poética Ghazal (ou Gazel, uma forma de poema lírico de origem árabe, de cunho amoroso e místico surgido no final do século VII).

Nascida em 1927 em Teerã, Simin escreveu seu primeiro livro de poesias aos catorze anos de idade, todo no estilo Ghazal, expandindo a forma e, pela primeira vez, adicionando diálogos e eventos. Seus mais famosos Ghazal falam sobre o universo feminino: a perda dos filhos, de maridos mortos em guerra contra o Iraque, em mais de 600 poemas e 300 canções.

Nas eleições de 2009, que foram acompanhadas por acirrados protestos e dezenas de mortos, ela escreveu o poema Stop throwing my country to the wind (“Parem de empurrar meu país contra o vento”, em tradução livre) em tributo a Neda Salehi Agha-Soltan, (foto ao lado) uma mulher ainda jovem que foi assassinada durante os protestos:

Você não está morta nem morrerá Permanecerá sempre viva Pois tem uma existência eterna Você é a voz do povo do Irã.

Simin Behbahani

“Gostaria de ver um Irã que se abrisse nas relações, um Irã que viva em paz”, disse Simin logo após os protestos de 2009. E pouco tempo depois, a polícia interrogou-a durante horas, proibiu-a de deixar o país e confiscou seu passaporte. Sobre este acontecimento, a professora de literatura persa na Universidade de Virgínia e autora de várias obras, Farzaneth Milani, exclamou, perplexa: “Pensávamos que ela fosse intocável!”. E prosseguiu: “Entender o trabalho de Simin é entender o paradoxo natural do Irã. Ela poderia assinar seus livros sob o nome de Irã, por identificar-se com seu povo, pois era onde ela tecia a tela que dava voz ao seu povo; escrevia crônicas de esperança e desilusões; falava sobre a heroica resistência e a atividade subversiva de sua nação”.

Simin Behbahani

Simin Behbahani escrevia com arte e elegância, com coragem e sabedoria focando no concreto. Retratou a realidade do Irã provando que a escuridão pode produzir a mais clara luz. Utilizou as palavras para lutar pela justiça, pelos direitos humanos, pela tolerância, pela paz e pela liberdade de expressão. E assim, através de seus escritos a nação encontrou voz, pois o Irã que ela descrevia era feito de muitos “Irãs”.

 

Graciosa aproximou-se
em um vestido de seda
azul brilhante;
com um ramo de oliveira
em sua mão
e muitos sinais de amargura em seus olhos.
Chegando a ela,
eu a cumprimentei,
E tomou suas mãos na minha:
os pulsos podem ainda ser sentidos em suas veias;
com vida seu corpo ainda estava morno.
‘Mas você está sem vida, mãe!’
Eu disse: ‘Oh, há muitos anos você morreu!’
Ninguém cheirou
os seus perfumes,
em nenhuma vestimenta
foi envolvida.
De relance tomei em
minhas mãos
o ramo de oliveira.

MÃE

Publicado na Revista Mundo e Missão de maio 2017
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